"Vida"- Ballet Stagium - foto: Emídio Luisi

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Conto do Alter Ego III

Estavam mais uma vez assistindo a uma mesa de mais um congresso, juntos: mais uma desculpa para ficar sentado ao lado do outro, para esbarrarem os braços e sentirem suas peles. Ela pingava suores, mesmo em um ambiente gelado pelo novo ar-condicionado, reivindicado na greve. Quando ele fez algum comentário sobre o  assunto da mesa, ao pé do seu ouvido, ela não entendeu uma palavra: só conseguia imaginar o vapor da expiração dele aquecendo um dos seus mamilos, momento que precederia os lábios dele se fechando e, então, sugando o seu seio. "Já volto", disse ela, tentando disfarçar a respiração ofegante. Correu para o banheiro. Se olhava no espelho e fazia,um monólogo mental. De tanto se perguntar se estava maluca, reparando a umidade na sua calcinha, concluiu que só estava com tesão. Perto dele, quando não estavam conversando, ela sentia como se não fosse capaz de sentir coisas mais complexas: sentia-se toda desejo (puro e simples). Não havia percebido o quão complexo era viver a sua condição tão humana. Era lua cheia e ele a convidou para ir a mais um evento acadêmico. Pegaram o metrô. Conforme o vagão se abarrotava de gente, mais os dois encostavam um no outro. "Pode segurar em mim!", se disponibilizou para resgatá-la do desamparo de não alcançar nenhuma alça ou barra próxima. Ela aceitou, pondo sua mão plenamente aberta sobre o ombro dele, com os olhos vidrados e um movimento robótico para encobrir a estranheza dos olhos vidrados. A cada freada, em cada estação, um aperto nos ombros dele. Mal sabia ela que ele estava utilizando todo o seu poder de abstração para não empaudurecer por conta do seu toque, do seu decote e de todas as palavras e coisas que evitava para esconder o que queria realmente falar e fazer. Mais um dia no núcleo de pesquisa, sozinhos. Brigaram por algo, numa briga sem motivo aparente. "Você tá certa!"- ele não compreende, mas dá o braço a torcer. Com as sobrancelhas levantadas, ela se aproximou sussurrando "claro-queu-tô!" e, mordendo a orelha dele que sempre achou tão linda, sentou frente a ele na mesma cadeira, segurou seu queixo, olhou no fundo daquelas pupilas dilatadas e o beijou. Em resposta, ele abraçou o quadril dela contra o seu. Os quadris em um movimento cadenciado, a respiração abafada ecoando para dentro das gargantas nos beijos de boca aberta, os franzidos das roupas sendo amassadas ainda vestidas culminaram no orgasmo dela e na feição de deliciosa surpresa dele. Passos vindos do corredor os fizeram voar cada um para seu devido canto da sala e encenar trabalho sendo feito. "Por que esse silêncio? Vocês estão sempre debatendo algo!" - reclamava o colega, sem saber o imenso barulho que ela e ele ouviam no olhar do outro.

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