segunda-feira, 18 de maio de 2015
Conto do Alter Ego II
Quando sentou-se na poltrona, o fez com tanta força e peso que retirou quase todo ar que restava nela, entoando aquele barulho constrangedoramente atrativo de olhares zombeteiros dos outros clientes da coffeeshop. O pesar não era de fato de seu corpo, deveras mais esbelto pela má alimentação dos dias de feriado prolongado, mas da sua mente e dos seus suspiros carregados de ansiedade. Tentou aproveitar o ambiente de iluminação amena, o conforto da poltrona barulhenta e, assim, parecer mais relaxado em vez de correr o risco de assustar, com olhar paranóico, a quem viesse anotar o seu pedido. Por sorte, o rapaz sério e de poucas palavras veio atendê-lo, melhor do que a moça sorridente, positiva à la Polianna e que sempre exclamava elogios ao clima do dia , mesmo que estivesse um clima aborrecedor. Preferiu um capuccino com creme, algo pesado e doce, para desacelerar pensamentos desgovernados e ainda assim manter-se alerta para seu encontro. Ele iria encontrá-la. Não acreditava nisso ou não queria crer. Uma vez servido, comeu um pouco do creme antes de misturá-lo a bebida. Mais uma vez, num de seus devaneios bregas, ele idealizava os lábios dela macios e doces como aquele creme e, talvez, seus outros lábios fossem também como os da boca. Não queria crer que uma oportunidade de prová-los havia chegado. Passara anos escrevendo sobre tudo e todos, mas quando queria criar algo do nada, ela era sua inspiração para personagens enigmáticas e interessantes, fora de seu cotidiano monótono. Era a sua vizinha. Aquela que ostentava belos cactos nas janelas, ouvia ou cantava à capella os mais variados tipos musicais em volume alto, sorria para cada pessoa que a cumprimentava, e alguns dias se fechava em seu mundo, sem voz, apenas um choro audível no silêncio da madrugada. Ela mudou-se, no início da década para Curitiba, mas manteve contato. Na distância, os dois ficavam a vontade para conversar: ela lhe dava conselhos para que chegasse bem aos trinta e poucos anos e ele a lembrava do desprendimento imaturo dos vinte poucos. Foi quando ela o incentivou a publicar seus escritos, em vez de queimá-los na pia da cozinha. A partir dali, sua vida de programador ganhou um novo layout e a tal "vizinha" tornou-se sua heroína. Viveu um vida tranquila, com seus sucessos: era melhor programador do que escritor, mas ia bem nas duas coisas, além do bom relacionamento com as mulheres, principalmente, com a atual. Porém, num sábado a noite, antes de dormir, excepcionalmente sozinho, olhou para seu relógio, olhou para o teto, fechou os olhos... pensou nela. Levantou, foi à geladeira, abriu uma Heineken, bebeu olhando o Facebook e lá estava ela no seu Feed de Notícias, publicando alguma foto linda com alguma uma frase linda sobre o amor pelo marido. Decidiu tentar dormir novamente, apesar de se enroscar entre os lençóis e pensamentos. Até que cansou do cansaço. Acabou dormindo tarde e acordando tarde, no domingo. Não queria sair da cama. Havia pensado nela a noite toda e assim queria permanecer. Decidido, mandou uma mensagem para ela comentando como foi seu sono, como ele sempre quis que fosse realidade, como ela o inspirava. Para a surpresa dele, ela respondeu logo em seguida "Esses sonhos parecem muito bons. Vamos conversar sobre eles? Hoje estou por perto. Te encontro naquela cafeteria da Paulista, que você gosta.". Ele não acreditava. Quando estava na metade do capuccino, ela chegou. Tomando um expresso duplo, sem açúcar, ela lhe explicou, pacientemente, que o sonho dele era muito bom, mas sonhos são apenas sonhos e podem não passar de filmecos mentais de coisas misturadas: coisas do passado/presente/futuro, medos que são desejos e desejos que são medos; o que ele sonhou não era nada, a não ser, possivelmente, um tipo de presságio da visita dela, somado ao desejo de estar dormindo com a namorada que fora viajar. Ele concordou plenamente. "Meu Deus!Foi só um sonho! Sou muito bobo mesmo!". Gargalhou e pediu desculpas por aquilo tudo. No embalo dos risos ela o perdoou como uma boa amiga. Enquanto ele contava mais detalhes sobre a nova namorada e as mais recentes peripécias dos outros vizinhos, o marido dela chegou e não poderia ficar para pôr a conversa em dia, pois tinham pouco tempo para visitar parentes e ainda ir para o aeroporto. Os três se despediram e ela foi embora com um nó na garganta. Tudo o que ele disse naquela mensagem, era o que ela gostaria de ter lido tempos atrás. Porém, quando entrou no táxi, parecia fechar a porta de uma viagem a um sonho passado e, ao abraçar o marido sentiu-se abraçando o presente, o real agora, e sorria serenamente num momento pleno. Imagino que tenha sido assim. Sempre escreverei sobre ela.
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Merda ("MERDE!"=sucesso) ou calçada limpa(=fracasso) para mim?